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quarta-feira, 2 de abril de 2008

Criança tem cada uma!

Hoje para quebrar um pouco o gelo e para evitar que o blog seja demasiado sisudo, publico um caso de infância, desses que, pela graça divina acontece em cada família para a gente lembrar juntos e sorri e sorri e sorri. Perdoem a falta de jeito para relatar. Para quem viu e viveu foi extremamente engraçado, pena que eu não saiba pôr nas letras a emoção vivida.
Catequese Doméstica


No lar onde fui educado, além das orações diárias rezadas em família, a exemplo da oração matutina (porque não dizer “madrugadina” às 4:30 h), do Ângelus às 18:00h e da recitação do terço à noite, nos brevíssimos intervalos que se tinha durante os dias da semana, era-nos aconselhada a leitura de algum livro, mas, claro que a Bíblia era o mais indicado.
No Domingo, dia do Senhor, o repouso do corpo não coincidia com o da alma, pois esta era ainda mais impelida a rezar todas as orações praticadas durante a semana e ainda tinha que se fazer um esforço concentrado para participar da missa ou culto dominical em comunidade e em nossa própria casa, claro, tinha uma catequese paterna.
Antes de relatar um fato ocorrido numa dessas sessões catequéticas, devo atentar para um detalhe: minha família, além do meu pai e minha saudosíssima mãezinha, era composta pelos treze filhos deste casal. Como se vê, numa família que tem os costumes descritos nos dois primeiros parágrafos deste texto, não há cabimento para uso de palavrões, palavras chulas ou de baixo calão. Não havia ninguém “formado”, ou seja, que tivesse ao menos o ensino médio completo. Entretanto, não éramos tão ignorantes exceto numa coisa, no nome da genitália feminina. Apesar de não ouvirmos no seio familiar, nos meios que freqüentávamos inevitavelmente se ouvia vários dos termos mais chulos e até vulgares com que se chamava aquela parte anatômica da mulher.
Baseados nos acontecimentos cotidianos, quando tantas vezes ouvíamos nossa mãezinha, com seus repentes e sua enorme espontaneidade ordenar a uma filha mais velha com expressões do tipo: “Vai ali fulana, veste uma calcinha na tua irmã pequena que tá com a “beleza” de fora!”
Como somos treze filhos e filhas, os mais velhos eram, de certa forma, um pouco babás dos mais novos, pois minha mãe não podia sozinha dar conta da tanta lida. Assim, tarefas fáceis como vestir uma calcinha para cobrir a “beleza” das irmãs mais novas eram sempre ordenadas às mais velhas, de modo que tantas vezes ouvida aquela ordem, por osmose, aprendemos que o nome da genitália feminina era mesmo “beleza”. Pois minha mãe jamais usaria os termos chulos ou vulgares que ouvíamos fora de casa, para nomear a “beleza” de suas filhas. As “belezas” eram sempre muito bem preservadas da falação, da exposição, mesmo quando ainda se era bebê. Lá nunca se praticou aquele costume de se fingir, pondo a mão na genitália dos menininhos e depois se cheirar a ponta dos dedos dizendo que estão cheirando “o pó”. Se não se fazia isso nem com os homens, que gozam de maior liberdade e tolerância na moral sexual, imagine se se podia permitir alguma alusão engraçada às “belezas” das meninas.
Dadas estas informações, volto a falar da catequese dominical. Como dizia antes, numa dessas sessões, meu pai começou a falar da importância e das recompensas celestiais de se praticar as virtudes. Pois quem não as pratica, não vai para o céu e sim para o inferno, onde só existe eternamente, fogo, dor, sofrimento, choro e “ranger de dentes”. Marcou-me muito esta expressão, “ranger de dentes”, mas não foi dela que saiu o fato interessante que relato.
O cerne da questão aqui na verdade agora é o céu. Foi exatamente o céu que causou espanto, acho que posso dizer escândalo no julgamento de uma das filhas catequizandas quando meu pai tentou enfatizar como seria nossa chegada no céu.
Na sua descrição pedagógica, no céu, somos recebidos com grandes festas, com um coro de vozes celestiais cantando, dançando, tocando trombetas em torno de Deus que vive rodeado de anjos que vêm nos receber com o nosso anjo da guarda à frente, mostrando toda a sua grande “beleza”.
Aí foi demais, como podia anjo mostrar a beleza? Se anjos são santos e nem as meninas que são da pecadora raça humana pode fazer isso, como que os anjos podem?
Minha irmãzinha na sua inteligência e integridade não pode aceitar aquilo sem um espanto, que, não fosse a enorme autoridade do nosso pai, não tenho dúvidas que expressaria energicamente seu protesto. Como não podia fazê-lo desta forma, sem esconder o espanto e disfarçando a rebeldia do que deveria ser um protesto, ela pergunta:
– Mas vem cá pai, quer dizer que os anjos ficam sem calcinha no céu?
E meu pai sem entender bem donde ela tirou aquela idéia, porque aquela pergunta descabida, diz:
– Não! Por quê?
– O sinhor não disse que os anjos vêm receber a gente mostrando a beleza no céu?
– Disse.
– Pois então?!
O velho entendeu a pergunta e passou a explicar:
– Beleza é coisa bonita, é coisa maravilhosa, coisa liiiinda!
Ao que a infante respondeu em sua inocência
– Ah! Pai, eu não acho não.
– Mas é!
Respondeu ele.
Só daí a alguns anos, depois das aulas de ciências biológicas na escola regular, é que minha irmãzinha veio a partilhar conosco o seu aprendizado de que a “beleza” em verdade tem outro nome.
Vital Martinho Carneiro de Oliveira.
Fato vivido nos anos 70 e relatato por escrito em
02/04/2008.

5 Comments:

Anônimo said...

Tipico desta família.
kkkkkkkkkk
até imagino.
conta outras ai,esta foi so 1%.
abraços primo!

Ricardo Thadeu said...

Que "beleza" de texto!

É legal essa questão dos eufemismos que alguns adultos usam e acabam por incuti-los na cabeça das crianças.
Parabéns.

Anônimo said...

Embora os dois comentários acima já tenham dito "tudo" sobre esta BELEZA de texto, não posso deixar de registrar aqui a veracidade deste fato. Aliás, como está dito no 1º comentário, este fato representa apenas 1/% de tudo o que aconteceu naquela casa de onde tenho orgulho de ter vindo.

A.M.C.O

Renatha said...

Massa o texto Vital!!!

Interessante relato sobre o método empregado pelos pais na educação de seus filhos. Além de ser uma leitura muito agradável.
Parabéns

Mística said...

rsrsrs
Bem aventurados que tem beleza histórica para partilhar.rsrsrs
Bom texto.
Um forte abraço!!!!!

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